A Diocese de Floriano restringiu o uso de Inteligência Artificial (IA) na produção de conteúdos visuais para divulgação de missas e eventos paroquiais, bem como imagens que distorcem o rosto de membros da Igreja. Inspirado na carta encíclica Magnifica Humanitas, divulgada pelo Santo Padre Papa Leão XIV, o documento foi assinado pelo bispo Dom Júlio César no último dia 14 e tem o objetivo de “preservar a autenticidade e a dignidade da pessoa humana”.
Em diversos documentos da Igreja e mensagens especiais, Papa Leão XIV tem dialogado sobre a utilização social, eclesial e os desafios contemporâneos advindos das IAs. Em celebração ao 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Santo Padre escreveu uma mensagem com o tema: “Preservar vozes e rostos humanos”, destacando que “rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança”.
O assessor eclesiástico de comunicação da Arquidiocese de Teresina, padre Robert Araújo, ao explicar os desdobramentos do documento em vigor na Diocese de Floriano, pontua que cada diocese possui autonomia para propor as próprias orientações pastorais.
“Vou reforçar algo: a Igreja não é contra o uso de Inteligência Artificial, mas a Igreja chama a um debate ético e moral sobre o uso das IAs. Dom Júlio César decretou uma restrição, se trata de uma suspensão temporária. Uma restrição até que se use com o devido cuidado de preservar, como ele mesmo utilizou o termo, ‘vozes e rostos humanos’”, explana padre Robert.
Orientações da Igreja para o bom uso das IAs
Publicada em 25 de maio deste ano pelo Santo Padre, a encíclica Magnifica Humanitas aborda a relação do ser humano com o uso das Inteligências Artificiais à luz da Doutrina Social da Igreja. Para o assessor eclesiástico, a encíclica convida a sociedade a caminhar para “uma cultura da educação digital”.
“Nós temos ferramentas, temos a IA, e como isso é bom! Agora precisamos saber utilizá-las para que não percamos aquilo que é próprio do ser humano: o senso crítico e a criatividade. É um chamado que a Igreja faz, e estou me reportando ao Papa Leão XIV, porque nos escreveu este documento que é primaz no seu pontificado: tratar de salvaguardar a pessoa humana”, enfatiza padre Robert.
O sacerdote, referindo-se às restrições de uso da IA na Diocese de Floriano, reitera que “a máquina está ao nosso serviço e não o contrário. O que está no centro é sempre a pessoa humana. Deturpar a voz e o rosto é perder humanidade, e nós não podemos compactuar com isso”, destaca.
O documento em vigor na Diocese de Floriano direciona para que os agentes paroquiais e a Pastoral da Comunicação (PASCOM) utilize aplicativos apropriados para a criação de posts e fotografias reais. Para o padre Robert, o direcionamento, além de uma questão ética, é uma orientação para preservar o sagrado.
“É uma questão ética e, consequentemente, envolve o sagrado, porque a Igreja quer comunicar o Evangelho, quer comunicar a dignidade da pessoa humana, e nós fazemos isso através dos meios que temos à nossa disposição. Então, tudo que faz parte da comunicação da Igreja tem um sentido. E esse sentido não pode ser deturpado a partir destas ferramentas”, explica o sacerdote.
A medida tomada na Diocese de Floriano convida a Igreja, em especial a PASCOM, a refletir os usos das IAs no ambiente eclesial. Padre Robert recorda as discussões realizadas no 9º Encontro Nacional da PASCOM, realizado em julho deste ano, em Aparecida (SP), e destaca a importância de formações para os pasconeiros.
“A partir do encontro pudemos refletir sobre o uso destas tecnologias e como vamos aprimorá-las no nosso uso pastoral. Certamente que nós precisamos de diretrizes, precisamos formar os nossos agentes. Não acredito que seja bem por força de decreto ou de proibição, mas por orientação. Então, em nossa Arquidiocese, nós teremos etapas formativas para os nossos agentes da PASCOM”, finaliza o sacerdote.