INTRODUÇÃO
Vivemos em uma era marcada por avanços tecnológicos sem precedentes. A digitalização da vida cotidiana, a disseminação da informação e a interconectividade global transformaram profundamente as relações humanas e a percepção de mundo. Diante desse contexto, a obra da criação pode ficar ferida, mas é dever do ser humano colaborar para o bem da criação.
Quando o ser humano é criado por Deus, ele recebe o sopro da vida como é dito em Genesis 2,7s destarte o projeto de criação do ser humano colabora com toda a criação do mundo feita por Deus, diante disso o ser humano dotado de sabedoria uma vez que recebe o sopro da vida, deve estar alinhado com o projeto do criador, alicerçado a isso o intelecto humano está a serviço da criação, contudo o desejo de ganância do ser humano por vezes o torna uma pessoa desalinhada com a ação criadora, por isso a necessidade de sempre estar atento a ética e a dignidade da pessoa humana.
Toda a criação colabora com o plano amoroso de Deus, o ser humano como criatura também colabora com o plano do criado, mediante a isso a criação das novas tecnologias ainda que provindas da inteligência humana, deveriam estar apoiadas no bem estar social e no amparo da colaboração com o mundo. O ser humano erra quando se usando dos meios digitais tenta se igualar a Deus e assim desconfigura o plano criacional, uma vez que só existe um único criador.
A era digital portanto é o que pode colaborar com o ser humano em vários aspectos, em particular como uma extensão produtiva na criação do ser humano, e de certa forma poder-se-ia então evangelizar se utilizando dos meios possíveis, quando o ser humano se usa da era digital para promover ódio e um armamento comunicativo o plano primeiro da comunicação falha, o de levar o plano do criador outro.
1 O Ser Humano como Imagem De Deus
A doutrina cristã ensina que o ser humano foi criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,27). Isso significa que cada pessoa humana possui dignidade inviolável, racionalidade, liberdade e capacidade criadora. Essa dignidade fundamenta a responsabilidade moral do homem diante do mundo, inclusive no uso das tecnologias. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual” (CIC, n. 362).
O teólogo La Peña prefigura a criação como uma história de amor entre o ser humano e Deus, de tal forma que a intenção é justamente sublinhar que a graça da criação prefigura um mandado especial, de forma que tornar-se um convite de Deus para a humanidade esse convite amoroso resume-se na graça de tornar o ser humano imagem e semelhança de Deus.
O intuito de falar sobre a criação do ser humano à imagem de Deus, uma das intenções é abordar a imagem do ser humano à própria imagem de Jesus Cristo, tendo em vista que o plano de salvação desemboca nele. O ser humano tendo se desconfigurado do plano inicial, Cristo na sua ação salvífica remonta a prefiguração inicial que é o homem ser concretamente a imagem e semelhança de Deus, de tal forma que, tornar-se-ia mítico se o homem não cresse na salvação tendo em vista a desconfiguração do plano inicial de Deus. Rahner nos explica:
Quando não se vê o ponto de partida para compreender a salvação originariamente no sujeito e na própria natureza da liberdade, a salvação só pode parecer algo estranho e cheirar mitologia. Mas no fundo as coisas não são assim, pois o genuíno conceito teológico de salvação não se refere a uma salvação futura que se precipita como que inesperadamente sobre a pessoa como se coisa vindo de fora, felicitando-a ou, no caso de perdição, infelicitando-a. (RANER, 1989, p. 55)
A criação de Deus busca fazer com que o homem seja sua imagem e semelhança, para isso desde os primórdios a intenção é que o ser humano esteja sempre mais ligado a ele, pois é ele quem sendo criado retorna ao Pai no fim de tudo. O ser humano nos últimos tempos tem buscado o que talvez o afaste de Deus e o abra as portas de novos horizontes, a ideia talvez seja que quanto mais avançado o ser humano se torne ele possa se equiparar a Deus ou ao que ele acredita ser uma força sobrenatural.
2 A Criação Digital como Extensão Produtiva na Criação do Ser Humano
A tecnologia é fruto do trabalho humano, e como tal, pode ser vista como participação na obra criadora de Deus. O Papa São João Paulo II recorda em Laborem Exercens que “a técnica é produto do gênio humano, dom de Deus, e, por isso, comporta uma responsabilidade moral” (n. 5). A criação digital, portanto, é uma expressão do mandato divino de “cultivar e guardar” a terra (Gn 2,15).
No entanto, esse poder criador deve ser exercido com sabedoria e ética, visando sempre o bem comum e a promoção da verdade. A luz da palavra de Deus podemos atentar que tudo que Deus fez era bom (Gn 1, 31). Sendo assim, a criação digital inspirada por Deus ao ser humano para melhor atender suas necessidades, deve estar a serviço do ser humano, para que haja uma centralidade do que é feito para tal extensão da vocação humana.
Para o mundo a tecnologia deve sempre avançar, talvez até mais do que o próprio conhecimento sobre Deus, porém a criação das mídias sociais, por ser uma criação do ser humano, mas com a anuência de Deus, deve estar a serviço da humanidade e não a humanidade a serviço dela, nos orienta a o Papa Paulo VI:
Entre as maravilhosas invenções da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a santa Igreja acolhe e fomenta aquelas que dizem respeito, antes de mais, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens. Entre estes meios, salientam-se aqueles que, por sua natureza, podem atingir e mover não só cada um dos homens, mas também as multidões e toda a sociedade humana, como a imprensa, o cinema, a rádio, a televisão e outros que, por isso mesmo, podem chamar-se, com toda a razão meios de comunicação social. (INTER MIRIFICA, n. 1)
O avanço do mundo tecnológico acarreta consigo seus desafios particulares onde o ser humano precisa compreender que é criatura, que as criações do próprio ser humano são iluminações da ação de Deus como afirma o antigo testamento. O espirito humano, iluminado pelo Espirito Criador, fomenta toda a criação, e busca aprofundar o demasiado ensino dado por Deus mediante a criação, o conhecimento por si só não chega a lugar algum, torna-se vago.
A criação digital pelo ser humano e inspirada por Deus, tem avanços consideráveis. A sabedoria divina inspira o ser humano, que em sua liberdade acolhe expande no mundo em vista do bem. A liberdade do ser humano em utilizar os meios que Deus o favorece o bem “se exerce na esfera das relações interpessoais, imprescindíveis para a própria realização como sujeito” (LA PEÑA, 1998, p. 64). Destarte a criação digital é para o ser humano um caminho de unidade a conformidade de Deus, quando usada para o bem e alicerçada no criador.
4 Evangelizar A Cultura Digital Diante Do Criador
A Igreja não rejeita a tecnologia, mas propõe uma evangelização da cultura digital. O Papa Bento XVI, em 2011, declarou que o mundo digital é “um continente a ser evangelizado” e que a comunicação cristã, mesmo online, deve ser “testemunho coerente de vida” (Mensagem para o 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais). Cabe aos cristãos testemunhar a verdade, a caridade e a justiça também nas redes sociais e ambientes virtuais. A presença cristã online deve ser luz que ilumina as trevas da desinformação e do egoísmo digital.
Diante de tantas atrocidades que podemos observar, a necessidade de a criatura voltar o seu olhar ao criador está mais presente, quando por exemplo o mal uso das mídias sociais são para destruir a obra criada. Um exemplo disso quando se utilizam as redes sociais para promover ódio ou até mesmo guerras.
A criação precisa ser respeitada, e a cultura digital é um meio importante que podemos usar hoje para acompanhar o processo de evangelização e levar aos seres humanos a compreensão que somos criaturas de um Deus, que rege tudo e está sempre olhando por todos e por toda a criação.
Em janeiro de 2025, o Papa Francisco alertou para a necessidade do desarmamento comunicação. A comunicação armada pode ser prejudicial ao projeto de criação, uma vez que pode pôr em risco a dignidade da pessoa humana. Torna-se urgente retomar a intenção dos meios digitais de estar em consonância com o Evangelho, para que toda a evangelização realizada, seja marcada profundamente pelo projeto de Jesus Cristo. O Papa Francisco nos alertava abertamente sobre isso:
Hoje em dia, com demasiada frequência, a comunicação não gera esperança, mas sim medo e desespero, preconceitos e rancores, fanatismo e até ódio. Muitas vezes, simplifica a realidade para suscitar reações instintivas; usa a palavra como uma espada; recorre mesmo a informações falsas ou habilmente distorcidas para enviar mensagens destinadas a exaltar os ânimos, a provocar e a ferir. Já várias vezes insisti na necessidade de “desarmar” a comunicação, de a purificar da agressividade. Nunca dá bom resultado reduzir a realidade a slogans. Desde os talk shows televisivos até às guerras verbais nas redes sociais, todos constatamos o risco de prevalecer o paradigma da competição, da contraposição, da vontade de dominar e possuir, da manipulação da opinião pública. (FRANCISCO, 2025)
A era digital é reflexo da criação de Deus, uma vez que a sabedoria do ser humano provém do Espirito Santo, a alegria da criação deve brotar no coração de todos e suceder naquilo que poderá favorecer e contribuir com ações concretas na obra da criação. Existe o perigo de o avanço tecnológico caminhar aquém da verdadeira vocação do ser humano confunda seu coração e deixe de estar ligado à obra criadora, para isso o dialogo com a fé é tão excepcional, pois a obra criadora perpassa por este dialogo comunicativo.
O principio ético que deve reger o uso dos meios de comunicação social consiste em respeitar a pessoa e aa comunidade humana na sua dignidade e importância, que jamais podem ser sacrificadas por nenhum interesse. Portanto, é necessário observar o valor da pessoa e o bem comum nas ações comunicativas, que se concretizam na qualidade das relações interpessoais, na interioridade espiritual, na beleza, no meio ambiente, na corporeidade, no lúcido, na saúde e na busca de um estilo de vida saudável. (DOCUMENTO 99, n. 111)
A era digital no processo da criação do ser humano, impulsiona a obra por Deus começada e por isso busca sempre a aproximação entre a informação e o coração que deve gerar confiança no amor pela criação. Todo processo da criação é para mostrar que tudo que Deus fez é bom, e que o ser humano fazendo parte da criação, colabora como criatura pelo zelo daquilo que por Deus foi Criado. A colaboração do ser humano na era digital é de levar não só a informação, mas também de colaborar para que tal obra seja espalhada e que ambos busquem estar mais perto daquele que os criou.
CONCLUSÃO
A era digital é um tempo de grandes oportunidades e sérios desafios. A teologia convida à reflexão sobre a dignidade do ser humano, sua vocação para a criação e a necessidade de combater a desinformação que podem degradar a obra da criação. O cristão é chamado a discernir, evangelizar e humanizar a cultura digital, sendo sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5,13-14), também neste “tempo novo” que é a internet.
Constantemente o ser humano está em evolução na era digital, a Igreja Católica por sua vez tem acompanhado minunciosamente esses avanços, buscando salientar que acima de tudo a dignidade da pessoa humana deve ser preservada e respeitada, a criação da tecnologia não deveria dominar o ser humano e ainda mais porque a inteligência artificial tem ganhado palco nas grandes discussões do mundo, assim como já afirmou o Papa Leão XIV “existe a possibilidade de ser mal utilizada para lucros egoístas à custa dos outros ou, pior ainda, para fomentar conflitos e agressões”. A interação do ser humano na era digital precisa ser com coerência e ética, valorizando o ser humano.
A Teologia quando se refere a criação exulta o texto do livro do Gênesis 1,31 quando relata “E tudo que Deus fez, viu que era bom”. O ser humano também criado por Deus, goza das faculdades dadas também por Deus e proveniente do seu Espirito, ou seja, a sabedoria e inteligência, dados tais dons são instrumentos para a total eloquência do desenvolvimento humano no dia a dia, quando por ganância no aspecto digital ou quaisquer outros ambientes o ser humano se utiliza da sabedoria para ferir o outro, foge do princípio fundamentado por Deus e aa sua ganancia fala mais alto.
Por fim, toda a evolução digital pode ser colocada a serviço da humanidade e em particular da evangelização, ela não precisa ser ambiente de destruição mas sim um ambiente que gere harmonia e frutifique os dons dados por Deus, agindo com sabedoria e com prudência mediante a cada avanço e assim poderemos construir as pontes que tanto frisou o Papa Francisco em seu pontificado, sejamos pois criadores da era digital vinculada a ação do Espirito Santo de Deus, motivados a dar continuidade ao projeto salvífico.
REFERÊNCIAS
BENTO XVI, Papa. Mensagem para o 45 dia mundial das comunicações sociais. Disponível em: https://www.vatican.va/content/Benedictxvi/pt/messages/communications/documents/hf_ben-xvi_mes_20110124_45th-world-communications-day.html. Acesso em: 25/05/2025, 2011.
BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Diretório de Comunicação da Igreja no Brasil: Documento 99. 1. ed. Brasília: Edições CNBB, 2014.
FRANCISCO, Papa. Menagem para o 59 dia mundial das comunicações sociais. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/20250124-messaggio-comunicazioni-sociali.html. Acesso em: 25/05/2025, 2025.
JOÃO PAULO II, Papa. Laborem Exercens. São Paulo: Paulus, 1981.
LA PENÃ, Juan Luis Ruiz. Criação, Graça, Salvação. São Paulo: Loyola, 1998.
PAULO VI, Papa. Decreto Inter Mirifica – sobre os meios de comunicação social. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19631204_inter-mirifica_po.html. Acesso em 25/05/2025, 1966.
RAHNER, Karl. Curso Fundamental da fé. São Paulo: Paulus, 1989.
Texto do Seminarista Samuel de Sousa Matos – Estudante do 3ª ano de Teologia