No último fim de semana, a cidade de Bom Jesus do Gurguéia, sediou a 16ª Romaria da Terra e da Água do Piauí. Com o tema “Ecologia Integral a serviço da vida” e o lema bíblico “Com carinho preparaste essa terra para os pobres” (Sl 67,10), o evento reuniu romeiros e representantes das 8 arqui/dioceses em um forte clamor por justiça social e cuidado com o meio ambiente.
Mais do que um evento religioso, a Romaria se consolidou como espaço de denúncia e reflexão sobre os desafios enfrentados pelas comunidades pobres e pela natureza. Durante os dias de programação, o evento foi marcado por caminhadas, celebrações e seminários, que evidenciaram a união entre espiritualidade, cidadania e o compromisso com a vida.
O arcebispo de Teresina, Dom Juarez Marques, destacou em sua fala, que o evento é um espaço de reflexão entre fé e vida, sobretudo diante dos graves problemas ambientais atuais. “A Romaria da Terra e da Água une fé e vida com uma temática tão importante e urgente, a ecologia. Deus nos confiou a criação para o bem de todos. Hoje, nossa preocupação se volta para a destruição dos nossos mananciais, do cerrado e de tantas áreas naturais. Precisamos de uma mudança de mentalidade que vá além de plantar uma árvore. É preciso conversão pastoral e práticas sustentáveis que alcancem todas as instâncias da sociedade”, afirmou.

Dom Juarez também criticou a aprovação de leis que fragilizam a proteção ambiental, citando como exemplo o recente projeto de licenciamento ambiental aprovado no Congresso Nacional. “É uma lei muito permissiva. O desenvolvimento precisa vir acompanhado da defesa da vida, e não do seu sacrifício. Queremos progresso, sim, mas um progresso que respeite o hoje e as futuras gerações”, completou.

Dom Marcos Tavoni, bispo da Diocese de Bom Jesus, dirigiu uma fala durante a Coletiva de Imprensa sobre a necessidade de uma conversão ecológica que vá além de políticas públicas e leis ambientais. Para ele, é preciso tocar o íntimo das pessoas, pois sem isso, não haverá mudança verdadeira. ““A nossa esperança reside, sim, nos sistemas que existem para proteger o meio ambiente. Mas a principal esperança está no Evangelho. Se nós não tocarmos o coração das pessoas, de nada adianta, porque o que impera hoje é o egoísmo muito grande”, destacou.

Dom Júlio César, bispo de Floriano, enfatizou o caráter histórico e espiritual da Romaria, apontando que ela resgata a essência do povo de Deus como povo peregrino. “Desde o início, o povo de Deus é um povo em caminhada. A Romaria nos recorda essa dimensão escatológica, onde não temos morada permanente neste mundo, caminhamos rumo ao Reino de Deus”, disse. Mesmo lembrando a dimensão eterna da fé, o bispo reforçou que a Igreja também tem o dever de se comprometer com as urgências do tempo presente. “Enquanto Igreja, precisamos lutar contra a fome, a miséria, a violência e todas as estruturas de morte. A Romaria é um grito profético diante das injustiças sociais”, pontuou.
A Arquidiocese de Teresina desempenhou um papel importante na preparação do evento, promovendo uma intensa mobilização junto às paróquias, comunidades e instituições. A caminhada começou com a acolhida da cruz símbolo da Romaria, que percorreu diversos espaços da capital piauiense, incluindo presídios, escolas e comunidades.
“A cruz chegou a Teresina e passou por várias paróquias e instituições. Foi um momento de grande envolvimento”, explicou Lucineide Rodrigues, integrante da equipe de coordenação a nível arquidiocesano.
“Nós queremos promover um despertar de consciência. Cada pessoa precisa se sentir chamada a agir, sem esperar apenas pelas autoridades. O cuidado com o planeta começa com cada um de nós, reduzindo o lixo, o consumo de água, etc.”, acrescentou.

Vivências e testemunhos dos participantes
A cidade de Bom Jesus se preparou com entusiasmo para receber os romeiros. Moradores se mobilizaram em ações voluntárias e acolheram com carinho os visitantes. A professora Polyane Mourão foi uma das que contribuíram com a organização local. “Receber a Romaria aqui é um presente, pois enriquece nossa fé e reforça que Bom Jesus é uma terra acolhedora com os romeiros, que é algo que nós já temos fama. E sediar esse evento também é uma forma de agradecer pelo dom da vida e de mostrar a nossa força”, comentou.
Participante pela quarta vez da Romaria, Thamires Coelho compartilhou o que a motiva a retornar. “A cada edição, voltamos para casa com uma bagagem de aprendizados. Sempre tem um tema que nos transforma e agrega muito em nossa vida. É um momento de renovação da fé e de compromisso com as causas sociais”.
Já o agricultor familiar Juarez Celestino, morador da Comunidade Melancia do município de Gilbués, no interior do estado, ressaltou a importância do evento para dar visibilidade às lutas dos povos do campo. “Vivemos em uma região fortemente impactada pelo agronegócio. Estamos lutando pela legalização dos nossos territórios, e a Romaria nos dá voz, nos fortalece. Aqui, deixamos registrado o nosso grito por justiça e dignidade”, finalizou.

A 16ª Romaria da Terra e da Água reafirma seu papel como espaço de evangelização, e segue sendo um chamado coletivo à conversão ecológica, à justiça social e à construção de um mundo mais justo e sustentável.







